Reencontro com o propósito maior

O recomeço veio pelo inesperado…

Hoje eu vou contar para você como a vida me trouxe, através de uma situação de caos, um recomeço com vários aprendizados e um reencontro com meu propósito maior…

No dia 13 de junho eu estava levando minha filha para a escola de e no meio do caminho, uma criança entrou na minha frente na ciclovia, para não machucá-la, eu brequei e me desequilibrei, levando um daqueles tombos para nunca mais esquecer.

Resultado: fraturei meu pé em três lugares. Tive que passar por uma cirurgia de emergência e coloquei três pinos para a recuperação. Eu havia acabado de me recuperar de uma cirurgia do joelho que fiz em março (essa programada) e mesmo assim, gerou vários imprevistos na minha vida. Então quando veio esta nova situação, ganhando um pé quebrado e a previsão de repouso por até 6 meses, no primeiro instante, eu desmoronei, não sabia onde a dor, a incerteza e a ausência do movimento poderia me levar.

Neste artigo quero partilhar como fazer as pazes com o passado, se reconectar consigo e construir um futuro feliz!

As principais coisas que passavam pela minha cabeça naquele momento eram as minhas responsabilidades como mãe e profissional, pois sabia que com o pé quebrado não conseguiria exercer as duas atividades como gostaria.  Além disso, eu vinha de um período no qual estava me sentindo inquieta, num profundo questionamento sobre a vida, sobre seu sentido. Apesar de ter me adaptado bem na Alemanha, algumas coisas estavam me incomodando e até aquele momento eu não conseguia perceber exatamente o que era. Hoje poderia fazer uma lista chamada saudades e que seria inúmeras, entre a principal: a dor de não poder sempre visitar meus pais, sempre tão fortes e que hoje tem suas vulnerabilidades físicas também, e mesmo assim, o poder estar perto deles, ajudá-los, levá-los para passear e se divertir;

Quando cheguei no hospital, com muita dor, sabendo que o atendimento não seria dos mais rápidos, nem dos mais calorosos, eu não compreendia o que toda aquela dor, não enxergava um porquê e graças a ela, hoje eu vejo que foi um dos momentos mais valiosos do meu ano,até agora, pois deram sentido à minha existência, ao meu propósito maior e de que forma eu posso colaborar neste mundo. Viver o serendipismo (as descobertas da vida “por acidente”)

Qual seu propósito? O que faz você levantar todo dia da cama? O que faz seu coração vibrar? O que faz você passar por um dia difícil e mesmo assim fazer o seu melhor?

Convivo com pessoas de classe social baixa a alta, pessoas com marcas de suas histórias,  pessoas que deixaram sua cidade, seu país para buscar uma melhor qualidade de vida e passaram por preconceitos, por dificuldades de adaptação seja idioma, cultura, de temperatura, de se sentir “em casa” de novo… De pessoas que venceram no novo destino ou mesmo nativos, ambos com excelentes condições financeiras, porém, com um “vazio” em si, que gostariam que seus pais tivessem sido mais presentes, que tivessem sido acolhidos mais vezes, que pudessem visitar e ser visitados mais vezes por familiares…

Todos nós temos nossos “dissabores”, mas independente da história que vivemos, se soubermos reconhecer e honrar nossas histórias, nossos pais, nossa família, seja ela como for, todo aquele sofrimento e rejeição, dão espaço para um ser em paz consigo, com seu propósito maior de vida. Se transformarmos todo desafeto e sofrimento em um motor para nos impulsionar a fazer diferente e com amor, tudo será mais fluido. Não precisamos “repetir” as histórias que vivemos, mas enquanto não ressignificarmos nossos sofrimentos, não honrarmos quem precisamos honrar, as dificuldades dentro de nós permanece. Quando fazemos as pazes com nosso passado, seremos livres para ir atrás do que realmente importa, do que realmente faz o coração vibrar, de viver seu propósito maior.

Depois de tudo o que aconteceu, eu consigo perceber que o ocorrido comigo veio como uma oportunidade de resolver minha inquietação, ele me trouxe lições em forma de bênçãos, que compartilho contigo algumas:

  1. Não tenha medo de olhar para suas dores mais profundas. Quando você não pode mudar algo, aceite a situação como é e mude A FORMA como vai lidar com issoA vida é curta para não dedicar tempo para nós mesmos e para quem é importante para nós. Faça fazer valer!
  2. Quando você se sentir sozinho, se pergunte no que você foca: Em encontrar pessoas amorosas ao seu redor ou em pessoas que são solitárias. Sempre existem pessoas prontas a nos ajudar, mas precisamos estar abertos para recebe-las. Tudo depende do seu foco.
  3. Nunca estamos sozinhos: quem tem mais proximidade comigo sabe que acredito em Deus e nas bênçãos que Ele realiza. Qualquer situação que aconteça na sua vida é para te ensinar a confiar ainda mais Nele, a confiar no processo da vida! Falar com Deus ou com o que você acredita, como diz uma querida amiga, não se trata de um monólogo, no qual pedimos o que consideramos bom para nossa vida, mas de um diálogo, no qual entendemos que algumas situações, mesmo que a gente não as aceite na hora, vem para o nosso bem. Confie no processo da vida.
  4. Esteja presente: Desde o momento da situação até a recuperação que passo agora, todos os dias eu vivencio a solidariedade e o amor da minha família! Um dos inúmeros exemplos de amor: minha filha quando me vê desconfortável, canta para mim e me oferece seus ursinhos, e eu os recebo com muita gratidão, me recolho nos ursos e ela se chega a mim, vivemos nossa conexão ainda maior de mãe e filha e relembramos que Somos todos UM.
  5. Seja grato inclusive com quem te tratam mal: No período no hospital eu dependia dos enfermeiros para estar bem e boa parte tinha um humor nada amigável. Apesar de ser sempre educada, percebi que precisaria me esforçar mais para que eles me dessem o suporte necessário e fui ganhando toda a ajuda que precisava com amor. Na Alemanha, ao contrário do Brasil, não existe a impaciência, se você tem que esperar por algo, vai esperar e pronto, então lidar com essa diferença que, inicialmente, pode parecer descaso no Brasil, na Alemanha é apenas cultural.
  6. Muitas crenças que eu tinha sobre a minha vida caíram ao longo das semanas que seguiram o evento. Aqui você é tratado como qualquer outra pessoa, independente do seu diploma, credo, etnia, status social. Descobri nesses dias o quanto existe amor, cuidado e solidariedade aqui na Alemanha. Esqueça tudo que você ouviu sobre os alemães serem pessoas “frias”Pessoas solidárias e pessoas frias têm em qualquer lugar!
  7. Estar “parada” me fez ser uma mãe melhor e mais presente. Percebi que minha filha está crescendo e que ser controladora não vai ajudá-la, ela precisa de espaço para ser ela e eu preciso confiar que ela virá até mim quando precisar. Estou vivendo esse aprendizado na prática e isso acalmou meu coração!
  8. Aflorar meu lado feminino. Quando comecei a trabalhar, com 13 anos, me habituei a ter meu dinheiro, minha carreira, independência e às vezes engessou um lado mais delicado da vida para ser mais “forte”, Pára tudo, nós mulheres não precisamos dessa separação: Nós podemos ser independentes e decididas e ainda assim materna e cuidadosa com seu lar. Aceitar suas diferentes faces sem medo!
  9. Seja grata pela cidade ou país que você mora – Independente da saudade, que sempre haverá, Foi neste novo lugar que você decidiu viver com sua família, ou mesmo construir uma nova família. Seja onde você estiver, seja grata por tudo que você e sua família têm e vai perceber quantas coisas boas você tem recebido da vida!

Eu não vou mentir e te dizer que todo esse processo foi fácil, mas esse momento de reavaliação da vida é algo pelo qual todos devemos passar. Sempre dá tempo de olhar e consertar o que está nos machucando. O propósito é encontrado através de um desafio pessoal. Custa caro, custa o preço de um mergulho fundo em si.

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